- Por favor... - As palavras deixavam-lhe os lábios manchados, machucados, molhados; o gosto deliciosamente doce impregnava-lhe a língua macia e ela já não conseguia distinguir aquele sabor peculiar. E lá estava ele, próximo; Gabriel, homem de ombros largos, um metro e noventa de um corpo muito bem estruturado. Se chutasse diria que chegaria aos quarenta logo, logo. Deveriam chamá-la de Lolita por se envolver com homens assim, deixei o ar escapar pelos meus pulmões silenciosamente. Sara retomou rapidamente as lamúrias: - Me deixas tão ansiosa que perco o sono apenas por escutar seu nome. Chega, por favor. - Quem te viu quem te vê, Lolita, a menina antes cruel estava entregue a um canalha. Clichê demais. Notei-a proferir as duas últimas palavras num sussurro cansado, desviando o olhar ao outro lado pude vê-lo mover-se feito um leão, calculando seus movimentos naquela jaula pequena demais. "- Quem diz chega sou eu, acabou." Repetiu o moreno em um rugido abafado pelos dentes extremamente fieis, o deboche desenhando seus lábios num sorriso. Sara foi atingida por cada letra provinda de tais palavra, não fui capaz de compreender como suas pernas não cederam. Gabriel a fitou, tinha prazer em fazê-lo - sempre teve, mesmo em tais circunstâncias - pude senti-lo inspirar, pela última vez, o perfume da morena que mesclava-se, de uma forma deliciosa, ao medo que desta emanava. Conformado girou nos calcanhares deixando a belíssima sala de música. Sozinha Sara deixou-se cair sobre os joelhos - estes que se apoiavam sem dó sobre o chão frio - seus ombros moviam-se numa melancolia só. E foi a última vez que pude vê-la chorar - através da fresta de uma porta.
Arrepiei!
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