quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

It's a small crime and I've got no excuse


A música me fazia rodar, as palavras me arrancavam o ar. Respire; respire.” Esta voz me trazia à melodia semelhante às músicas que tocam em salas de espera de consultórios psiquiátricos. Psiquiatra... Quiçá teus pensamentos cheguem à conclusão de que necessite de um, mas a propósito, muitos dizem por aí que um assassino precisa ter uma vida ou um passado conturbado, talvez abusos sexuais na infância, rejeição dos pais e etc. Eles apenas esquecem de lhe mencionar um único detalhe; há por aí assassinos com uma vida completamente normal assim como seu passado livre de abusos e coisas do gênero, a maior diferença desse tipo para o anterior é: A sede por sangue não se torna necessidade, e sim, prazer.

Da mesma forma que àquela música é um tipo de calmante... também me é muito irritante e a voz voltou a chamar.  
- Eu vou contar até três para você calar essa sua boca imunda, Sasha. - Minha fala fluiu por entre os lábios secos enquanto meus olhos ainda mantinham sua cor em segredo, coberto pelas pálpebras pálidas. Sasha é digna de uma beleza sem comparação o que lhe estraga é sua lerdeza intelectual. Não hesitaria em cortar-lhe a garganta quando esta começasse com aqueles gemidos dignos de uma cadela no cio. Meus pesadelos não eram freqüentes, mas quando decidiam me visitar, posso te dizer com convicção que não era agradável.

- Poderia ser mais simpático às vezes, Asriel. - Ela grunhiu irritada, afastei-a de meu corpo sem usar movimentos bruscos. As gotículas de suor escorriam de meu pescoço á meu peito nu; saí da cama deslocando-me sem pressa até a janela, essa foi aberta e o ar gélido me benzeu os músculos fazendo com que eu pudesse suspirar aliviado. - Me deixe em paz. - Não me virei para fitá-la, mas sabia que Sasha tinha bufado e deixado o quarto. Apoiei ambos os braços sobre o para peito cobrindo novamente os olhos azuis com as pálpebras claras, inspirando com gosto.

A morte torna-se um problema quando involuntariamente desiste de ser solução, quando o que deveria lhe deixar permanece cravado em seu peito, em sua mente, em seu inconsciente e isso lhe visita em noites como essa. Grandes feridas nem sempre se fecham, lindas promessas nem sempre se cumprem. É a lei. Faça parte da exceção.

 O sono não foi capaz de me encontrar durante o resto da noite mas quem se preocupa com isso quando se tem milhões de segredos para desvendar? É o que se ganha ao ser pago para ouvir problemas, encontrar soluções... O tempo é curto e as incógnitas teimam em escapar por entre os vãos de meus dedos. A respiração pesada dela me arrancou de devaneios, não podia negar, no fundo Sasha era boa pra mim, não o suficiente, mas era.

Uma data importante se aproximava, dali a duas semanas completar-se-iam dois anos desde a morte de minha filha, Valentina, após esse acontecimento minha maior inimiga tornou-se a vida, agora eu a tiro de quem quero e até hoje ninguém mostrou-se capaz de perceber que para denominar-se Deus basta ter sangue nas mãos, almas sofridas sobre os braços e perdões concedidos. A mente humana é algo tão inconstante quanto meu humor, talvez seja esse o grande motivo para nos darmos tão bem.

- Asriel você precisa dormir. - Sasha informou-me com a voz embargada pelo sono, seus cabelos dourados reluziam como uma lanterna no quarto escuro.  - Já estou aqui. - Minha voz  muito mais calma e rouca do que há algumas horas atrás lhe tocou os ouvidos, acariciando-os, puxei-a para meu peito Asriel você precisa dormir. Repeti em meus pensamentos mergulhando na escuridão de minhas pálpebras.

Llamado de emergencia.

- É a terceira vez que acordo hoje. O quinto cigarro que eu deixo morrer nos dedos e, mesmo incapaz de numerar minha preguiça, sei que esta permanece gotejando pelos meus ombros, escorrendo feito culpa. - Dissera ela como numa reunião para viciados e ao fitar o espelho, mesmo de longe, tragava a si mesma com olhos obcecados. Quanta auto-estima. Um jazz dava ao local uma aparência calma, e ao ar daquela música todos os movimentos pareciam estar em câmera lenta. 


A porta do minúsculo apartamento se abriu revelando a nós todos, senhores, a imagem mal paga de Rafael. Ele era alto, as costas largas e bem talhadas em músculos proporcionais a sua altura, a barba lhe modelava a face dando um ar mais velho. - Que porra de música é essa, Carolina... - Esbravejou batendo a porta e após aquele estalido o local que antes parecia ter um ar calmo, voltou a rotina. 


- Vai tomar no cu, Rafael... O que você quer?! - Todos sabiam que a menina tinha um gênio do cão, sem contar com a personalidade forte. Botava no chão qualquer macho de quinta, e ainda pisava com seu salto no peito do maldito; exceto com Rafael. Nas mãos dele ela era apenas mais uma cadelinha disposta a crer em todas as fantasias literárias que ele expusesse. 


O homem retirou o paletó imundo e jogando-o sobre qualquer móvel a fitou, Rafael pôde senti-la estremecer apenas com a fúria contida em suas íris. - O que eu quero? - Repetiu pausadamente a pergunta, agora, retórica. - Você só pode estar de brincadeira comigo, garota, de brincadeira... Tarde da noite e ainda não se deu ao luxo de levantar a bunda da cama. Isso aqui tem cara de hotel, querida? - As últimas palavras foram ditas entredentes e na medida em que ele as pronunciava, sucessivamente, se aproximava tomando o maxilar alvo da garota em uma das mãos, com força, obrigando-a fitá-lo. - Eu tenho cara  de que, meu amor? - O tom se tornara aveludado, mas ainda escondia certa repulsa nas palavras. O medo ia se esvaindo dos olhos de Carolina e ao invés de escorrer para qualquer outro lugar, eu realmente não sei onde ele foi parar. - Eu... não quero trabalhar fora hoje. - As palavras vieram trabalhadas naquele tom sensual que toda puta contém por nascença. Algumas mulheres escolhem, outras nascem pra isso. É como dizem, ou não. Realidade infeliz.


O corpo esguio da morena moveu-se de modo calmo como quem tenta apaziguar uma fera. Trocaram de lugar. Carolina estava sentando sobre o colo dele enquanto Rafael cedia aos encantos - por assim dizer. Agora quem estava por cima e quem ditaria as regras era ela. Sedução. Um poder sem igual. Deslizou os lábios fartos pela orelha dele, e junto da boca saiu a língua, prendendo seu lóbulo e sugando-o; respirando ali enquanto lembrava de soltar alguns sussurros, que mais nos lembrariam gemidos. Rafael já tinha ambos os olhos fechados e foi esse seu pecado. O pequeno canivete, guardado junto a um dos seios deslizou ágil pela mão habilidosa de Carolina e aqueles foram os últimos gemidos que Rafael pôde ouvir.


"Cafetão é encontrado aos pedaços em seu sujo apartamento no centro de São Paulo, a polícia ainda não idenficou suspeitos (...)" 


Um crime - não tão digno de primeira página. Muita sacanagem pra uma manhã só, riu-se Carolina sorvendo um longo gole de seu café. Viciada no medo, fugia. 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Seria deveras considerável escrever e descrever uma pessoa a qual se conhece. Mas para isso deveria estar preparado, entrarei em zonas desconhecidas, diversos sentimentos espalhados por toda a casa, dores sem culpa penduradas feito enfeites; amores - se é disso que posso chamá-los - extraordinários tirados e espalhados pela mesa da cozinha, enchendo a geladeira por completo. Algo tão significativo como meu coração e dessa vez lhes falo como seu sentido único: Um orgão. Escolher a trilha sonora para o momento ideal, escrever uma carta que possivelmente não será lida.  O sentimento recíproco que se regenera, ou pelo menos deveria. Meu pensamento mantém-se em apenas um deles: saudade. Ela dói, me esfola e me mata aos poucos. Procuro refugio em qualquer coisa, algo que me tire desse ardor - que já não sei se é do peito ou do álcool que não costuma descer terno pelo meu esôfago - e nada encontro. Vodka, cigarros, e um beijo. Boa noite. Boa? Me irrita ler e reler textos tão piegas, e aqui estou eu disposta de uma hipocrisia sem igual. Hoje em dia as coisas tem sido diferentes, tenho preguiçar de sofrer. Realmente.