A música me fazia rodar, as palavras me arrancavam o ar. “Respire; respire.” Esta voz me trazia à melodia semelhante às músicas que tocam em salas de espera de consultórios psiquiátricos. Psiquiatra... Quiçá teus pensamentos cheguem à conclusão de que necessite de um, mas a propósito, muitos dizem por aí que um assassino precisa ter uma vida ou um passado conturbado, talvez abusos sexuais na infância, rejeição dos pais e etc. Eles apenas esquecem de lhe mencionar um único detalhe; há por aí assassinos com uma vida completamente normal assim como seu passado livre de abusos e coisas do gênero, a maior diferença desse tipo para o anterior é: A sede por sangue não se torna necessidade, e sim, prazer.
Da mesma forma que àquela música é um tipo de calmante... também me é muito irritante e a voz voltou a chamar.
- Eu vou contar até três para você calar essa sua boca imunda, Sasha. - Minha fala fluiu por entre os lábios secos enquanto meus olhos ainda mantinham sua cor em segredo, coberto pelas pálpebras pálidas. Sasha é digna de uma beleza sem comparação o que lhe estraga é sua lerdeza intelectual. Não hesitaria em cortar-lhe a garganta quando esta começasse com aqueles gemidos dignos de uma cadela no cio. Meus pesadelos não eram freqüentes, mas quando decidiam me visitar, posso te dizer com convicção que não era agradável.
- Poderia ser mais simpático às vezes, Asriel. - Ela grunhiu irritada, afastei-a de meu corpo sem usar movimentos bruscos. As gotículas de suor escorriam de meu pescoço á meu peito nu; saí da cama deslocando-me sem pressa até a janela, essa foi aberta e o ar gélido me benzeu os músculos fazendo com que eu pudesse suspirar aliviado. - Me deixe em paz. - Não me virei para fitá-la, mas sabia que Sasha tinha bufado e deixado o quarto. Apoiei ambos os braços sobre o para peito cobrindo novamente os olhos azuis com as pálpebras claras, inspirando com gosto.
A morte torna-se um problema quando involuntariamente desiste de ser solução, quando o que deveria lhe deixar permanece cravado em seu peito, em sua mente, em seu inconsciente e isso lhe visita em noites como essa. Grandes feridas nem sempre se fecham, lindas promessas nem sempre se cumprem. É a lei. Faça parte da exceção.
O sono não foi capaz de me encontrar durante o resto da noite mas quem se preocupa com isso quando se tem milhões de segredos para desvendar? É o que se ganha ao ser pago para ouvir problemas, encontrar soluções... O tempo é curto e as incógnitas teimam em escapar por entre os vãos de meus dedos. A respiração pesada dela me arrancou de devaneios, não podia negar, no fundo Sasha era boa pra mim, não o suficiente, mas era.
Uma data importante se aproximava, dali a duas semanas completar-se-iam dois anos desde a morte de minha filha, Valentina, após esse acontecimento minha maior inimiga tornou-se a vida, agora eu a tiro de quem quero e até hoje ninguém mostrou-se capaz de perceber que para denominar-se Deus basta ter sangue nas mãos, almas sofridas sobre os braços e perdões concedidos. A mente humana é algo tão inconstante quanto meu humor, talvez seja esse o grande motivo para nos darmos tão bem.
- Asriel você precisa dormir. - Sasha informou-me com a voz embargada pelo sono, seus cabelos dourados reluziam como uma lanterna no quarto escuro. - Já estou aqui. - Minha voz muito mais calma e rouca do que há algumas horas atrás lhe tocou os ouvidos, acariciando-os, puxei-a para meu peito “Asriel você precisa dormir.” Repeti em meus pensamentos mergulhando na escuridão de minhas pálpebras.
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