quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Llamado de emergencia.

- É a terceira vez que acordo hoje. O quinto cigarro que eu deixo morrer nos dedos e, mesmo incapaz de numerar minha preguiça, sei que esta permanece gotejando pelos meus ombros, escorrendo feito culpa. - Dissera ela como numa reunião para viciados e ao fitar o espelho, mesmo de longe, tragava a si mesma com olhos obcecados. Quanta auto-estima. Um jazz dava ao local uma aparência calma, e ao ar daquela música todos os movimentos pareciam estar em câmera lenta. 


A porta do minúsculo apartamento se abriu revelando a nós todos, senhores, a imagem mal paga de Rafael. Ele era alto, as costas largas e bem talhadas em músculos proporcionais a sua altura, a barba lhe modelava a face dando um ar mais velho. - Que porra de música é essa, Carolina... - Esbravejou batendo a porta e após aquele estalido o local que antes parecia ter um ar calmo, voltou a rotina. 


- Vai tomar no cu, Rafael... O que você quer?! - Todos sabiam que a menina tinha um gênio do cão, sem contar com a personalidade forte. Botava no chão qualquer macho de quinta, e ainda pisava com seu salto no peito do maldito; exceto com Rafael. Nas mãos dele ela era apenas mais uma cadelinha disposta a crer em todas as fantasias literárias que ele expusesse. 


O homem retirou o paletó imundo e jogando-o sobre qualquer móvel a fitou, Rafael pôde senti-la estremecer apenas com a fúria contida em suas íris. - O que eu quero? - Repetiu pausadamente a pergunta, agora, retórica. - Você só pode estar de brincadeira comigo, garota, de brincadeira... Tarde da noite e ainda não se deu ao luxo de levantar a bunda da cama. Isso aqui tem cara de hotel, querida? - As últimas palavras foram ditas entredentes e na medida em que ele as pronunciava, sucessivamente, se aproximava tomando o maxilar alvo da garota em uma das mãos, com força, obrigando-a fitá-lo. - Eu tenho cara  de que, meu amor? - O tom se tornara aveludado, mas ainda escondia certa repulsa nas palavras. O medo ia se esvaindo dos olhos de Carolina e ao invés de escorrer para qualquer outro lugar, eu realmente não sei onde ele foi parar. - Eu... não quero trabalhar fora hoje. - As palavras vieram trabalhadas naquele tom sensual que toda puta contém por nascença. Algumas mulheres escolhem, outras nascem pra isso. É como dizem, ou não. Realidade infeliz.


O corpo esguio da morena moveu-se de modo calmo como quem tenta apaziguar uma fera. Trocaram de lugar. Carolina estava sentando sobre o colo dele enquanto Rafael cedia aos encantos - por assim dizer. Agora quem estava por cima e quem ditaria as regras era ela. Sedução. Um poder sem igual. Deslizou os lábios fartos pela orelha dele, e junto da boca saiu a língua, prendendo seu lóbulo e sugando-o; respirando ali enquanto lembrava de soltar alguns sussurros, que mais nos lembrariam gemidos. Rafael já tinha ambos os olhos fechados e foi esse seu pecado. O pequeno canivete, guardado junto a um dos seios deslizou ágil pela mão habilidosa de Carolina e aqueles foram os últimos gemidos que Rafael pôde ouvir.


"Cafetão é encontrado aos pedaços em seu sujo apartamento no centro de São Paulo, a polícia ainda não idenficou suspeitos (...)" 


Um crime - não tão digno de primeira página. Muita sacanagem pra uma manhã só, riu-se Carolina sorvendo um longo gole de seu café. Viciada no medo, fugia. 

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